LUIS MELODIA - PÉROLA NEGRA (1973)
Algumas vidas se revelam como nota de rodapé, a sombra, o
apêndice de um único gesto da juventude. Por mais que um artista queira se
subtrair do estigma, este se impõe contra a vontade do criador, como letra
marcada a feno. Aos 46 anos de idade, o compositor e cantor carioca Luiz
Melodia tenta esquecer em que ano estamos - exatamente como nos versos de
"Pérola Negra". a faixa-título do seu primeiro LR de 1973. Houvesse
ele abandonado a carreira para virar contrabandista na África, como o poeta
Arthur Rimbaud (outro maldito pelos feitos juvenis), ainda assim seria lembrado
por causa de Pérola Negra. Estacou ali, aos 23 anos, num ano que todo mundo já
esqueceu, salvo ele.
Melodia
extraiu material do Estácio, bairro-berço do samba clássico, cuja forma foi
fixada em 1931 pelos bambas do local, como Ismael Silva. Bide, Balaco e
Brancura. Seu pai, o violonista Osvaldo Melodia, freqüentava a roda de bambas,
e o influenciou. O auxílio do pandeiro foi luxuoso. Mas Luiz não se via como
pagodeiro. O blues e o pop tropicalista lhe eram também fundamentais. O Rimbaud
do morro estreou aos 15 anos, num grupo de baile. Compunha sambas acartolados e
rocks lisérgicos.
Pouco
antes de os poetas Torquato Neto e Waly Salomão descobrirem suas músicas numa
visita ao morro de São Carlos (hábito desenvolvido pelo artista plástico Hélio
Oiticica), Melodia pensou em parar, em trocar a música pelo serviço de garçom
numa academia de ginástica. Waly, então, levou uma fita com "Pérola
Negra" para Gal Costa. Ela gravou a música e passou a atuar como
divulgadora do seu trabalho. Contratado pelo empresário Guilherme Araújo, ele
terminou por ser convidado para gravar um disco pela Philips.
Pérola
Negra traz dez faixas arranjadas pelo violonista Perinho Albuquerque. Um solo
de flauta de Canhoto, acompanhado por seu regional, dá a largada à eternidade
de Melodia, no samba "Estácio, Eu E Você", inspirado em Cartola. A
segunda faixa já é um blues, "Vale Quanto Pesa", em instrumentação
acústica. O destaque é o refrão dos metais, enquanto Melodia canta "ai de
mim de nós dois", Rildo Hora preludia com a gaita o samba-canção
"Estácio, Holly Estácio", peça fundamental do desbunde setentista:
"Trago não traço/ Faço não caço/ E o amor da morena maldita/ Domingo no
espaço". Versos assim vincaram uma geração.
O
rockão "Pra Aquietar" - em estilo Dededrim (inseticida) traçado pela guitarra
do soul- man carioca Hyldon - conserva em formol um passeio suburbano à
calorenta Ilha De Paquetá. "Abundantemente Morte", "Pérola
Negra" e "Magrelinha" são blues interligados pelo cordão de amor
e morte. Dificilmente superada, essa trilogia de canções forma o tesouro
nacional do oxímoro - das frases que se contradizem ("Baby te amo! Nem sei
se te amo") para definir uma situação existencial. A verdade é que a
sombra sobrevem na obra do compositor a partir das três faixas seguintes.
"Farrapo Humano", "Objeto H" e o "Forró De
Janeiro" já adentram pela rota da variação sobre os primeiros temas.
Pérola Negra é ápice e lápide estética Ouvimos hoje o Melodia desse disco,
ainda que ele cante outros e melhores blues. Todos os seus atos são e serão regidos
pelo LP. Não tem por que se lamentar da reprodução do mesmo modelo. O grande
artista é sempre resultado de uma cena originária.


Bl,alalalalalalalalalal
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